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sábado, 6 de outubro de 2018

Maior investidor do país vê vitória de Bolsonaro e amplia compra de ações



Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde, conta sua estratégia em relatório nesta sexta (5)



por Tássia Kastner - Folha

SÃO PAULO


O empresário Luis Stuhlberger, um dos mais respeitados investidores do país por sua gestão do Fundo Verde, elevou as aplicações em Bolsa no mês de setembro antecipando a possibilidade de Jair Bolsonaro (PSL) avançar na preferência dos eleitores em um segundo turno contra Fernando Haddad (PT).

Em relatório a investidores, que foi distribuído nesta sexta-feira (5), Stuhlberger afirma que acreditava no crescimento de Bolsonaro no segundo turno, quando o capitão reformado do Exército passaria a sofrer menos ataques de opositores, ao mesmo tempo em que poderia se alavancar com a rejeição ao PT.

“A grande surpresa foi que esse processo de rejeição à esquerda ocorreu de maneira muito acelerada, especialmente nos últimos dias. Com isso, o cenário que vislumbrávamos ocorrer ao longo de outubro foi antecipado”, diz em relatório.

“A eleição ainda é extremamente apertada, não podemos esquecer. Com os mercados nos preços atuais, parte da assimetria existente – o que considerávamos excesso de pessimismo – desapareceu”, acrescenta o investidor.

O fundo Verde foi criado em 1997 e entrou para história como o mais bem sucedido do mercado brasileiro, acumulando alta superior a 15.000% no período.

No mercado, porém, a cautela substituiu a euforia que predominou no mercado financeiro durante a semana. Nesta sexta, a Bolsa brasileira fechou em queda. O dólar também recuou e encerrou no menor patamar desde 9 de agosto, quando a corrida eleitoral começava a se desenhar.
AMBEV

Outro executivo que também tenta se aproximar do candidato é o do presidente da Ambev, Bernardo Pinto Paiva, que em uma iniciativa discreta pediu para agendar um encontro com Bolsonaro, de acordo com pessoas próximas do candidato.

Procurada, a fabricante de bebidas confirmou a informação, mas não quis se manifestar sobre o assunto.

Segundo a assessoria de imprensa da Ambev, o executivo também procurou outros candidatos líderes de pesquisas, tanto na corrida para a Presidência quanto para os governos dos estados.

Um ano depois


'Lei não é feita para bandido, o Brasil ama a ordem e o progresso'


por Vladimir Safatle
Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”
.



“Brasileiros amantes da pátria, venho a público em cadeia nacional, um ano após nossa grande vitória nas eleições de 2018, para anunciar medidas que nosso governo tomará contra o grave momento por que passamos. As forças subversivas que lutam dentro de nosso país contra os interesses supremos da pátria, aliados ao comunismo internacional, se voltaram contra as reformas que implementamos neste ano de 2019, semeando mentiras, cizânias e fake news entre o povo.

Quando flexibilizamos as leis de trabalho para garantir que os empresários voltassem a empregar mais, tirando entulhos que eles chamavam de ‘direitos’, esses delinquentes foram capazes de sorrateiramente convencer gente ingênua de que nós estávamos apenas governando para os ricos. Porra, quando eu falei que era melhor ter menos direitos e emprego do que mais direitos e desemprego parece que teve gente que não entendeu. O cara fica sonhando com férias, 13º, acordo coletivo, mas ninguém queria contratar.

Então a gente liberou e os empregos apareceram, tá OK?

Marcelo Cipis
Marcelo Cipis


Aí veio essa gente dizendo que os salários desses empregos eram muito mais baixos e sem garantias, que minha política era responsável por deixar os pobres ainda mais pobres, mesmo trabalhando mais e em condições piores, enquanto diminuía os impostos dos ricos. Eu botei uma alíquota única para o imposto de renda, 20% para todo mundo, e teve gente que ainda reclamou que os mais pobres perderam sua isenção fiscal. Mas todo mundo tem que colaborar. Todo mundo tem que pensar no Brasil.

Só que esse pessoal se aproveitou para criar aquela balbúrdia que vocês viram. O governo não ia deixar o país parar por causa daquelas greves e manifestações na rua. Mandei mesmo a polícia intervir. Fazer o que se aqueles vermelhos foram para cima das forças da ordem e elas reagiram? Porra, vocês acham o quê? Se teve 14 mortes, paciência. Esse país não vai virar uma Venezuela.

Depois, veio uma ONG estrangeira, dessa gente que fica comparando o Brasil às Filipinas e à Turquia, para dizer que o aumento da violência neste ano foi gerado pelo aumento da desigualdade e pela concentração de renda que meu governo teria produzido. Conversa. Violência é coisa de bandido, chega de passar a mão na cabeça de malandro. Só que esse pessoal ainda fica rodando o mundo com as cenas daqueles dois garotos que entraram em uma escola de elite de São Paulo e metralharam 25.

O que isso tem a ver com a liberação do porte de armas que fizemos no meu governo? Tudo isso é coisa de gente mal intencionada, tá OK? Hoje, os professores andam armados e estão mais seguros. Por isso, mandei essas ONGs para fora do país e aprovamos uma Lei da Informação verdadeira. Quem mentir dançou. Cadeia.

Agora, tem gente de novo na rua dizendo que eu não estou nem aí com a saúde pública, que está tudo sucateado e o povo apodrece em fila de hospital porque não aumentei os recursos para o SUS. Eu tinha dito que não ia aumentar mesmo, que não precisava disso. Mas aqueles médicos cubanos vieram com essa história de terem que tirar dinheiro do próprio bolso para comprar medicamentos para os pacientes. É coisa de cubano.

Juntou esse povo com os estudantes riquinhos que perderam sua mamata porque as universidades públicas agora são pagas e cortamos a verba desse pessoal que tinha fetiche de diploma. Aquilo era só doutrinação comunista e gayzista, ninguém vai sentir falta dos 5.000 professores que botamos para fora porque só faziam doutrinação.

Os pais têm que se preocupar com o ensino fundamental. Universidade para quê? O que falta é educação moral e cívica. Agora, se não tem gente que quer ser professor de ensino fundamental porque as tais condições de trabalho são ruins, paciência. Vamos fazer tudo a distância. E não venha falar em queda de qualidade. Esse pessoal gostava mesmo era da época em que o governo distribuía kit gay para nossas crianças.

Por tudo isso, eu e meu vice, o general Mourão, estamos decretando estado de exceção para limpar de uma vez por todas este país dessa escória e garantir o crescimento, a prosperidade e a paz social. Lei não é feita para bandido. O Brasil ama a ordem e o progresso. Boa noite.”

Parte da elite brasileira deserta da ciência e adere à magia



Sensatos caem vítimas da suposição de que a sinceridade grosseira pode ser redentora


por Reinaldo Azevedo

Jornalista, autor de “O País dos Petralhas”.


A dois dias do primeiro turno das eleições, vai uma constatação vazada não sem certa melancolia. Setores da elite universitária brasileira são hoje os principais clientes das mentiras espalhadas nas redes sociais. É um assombro que assim seja. Aqueles que, em tese, dispõem dos instrumentos mais afinados para apontar o que está fora do tom se mostram os maiores entusiastas de cacofonias muitas vezes sórdidas.

São, entre outros profissionais, médicos, engenheiros, dentistas, economistas, advogados —e, por óbvio, não estou aqui a cometer o erro da generalização. Também há, e espero que em maior número, os que se mostram capazes de ponderar e que ainda não renunciaram à lógica elementar em favor da falácia.

Quando essas pessoas estão a fazer uma incisão num abdômen, a calcular os materiais de uma ponte, a tratar o canal de um dente, a fazer uma planilha de custos, a articular os códigos legais que nos regem, pergunto: usam ou não a razão e o saber acumulado? Apelam a métodos já testados, verificados e verificáveis de precisão, buscando cercar as margens de erros, ou atuam segundo fundamentos místicos, o “ouvi dizer”, o “só pode ser”? Apelam à ciência ou dão três toques na madeira?

Devo começar a duvidar por princípio dos diagnósticos?

Devo começar a temer pelas edificações?

Devo começar a tremer de antemão pelos abcessos da imperícia?

Devo começar a desconfiar da matemática financeira?

Devo começar a recusar o aporte das lentes jurídicas?

A política também é um saber. E pode matar mais do que a imperícia em muitas profissões. De onde vem a crença de que alguém sem nenhuma experiência é capaz de oferecer a resposta certa e definitiva para problemas difíceis? Talvez eu mesmo possa responder em lugar dos que, a esta altura, podem estar indignados demais para fazer outra coisa que não vituperar contra mim —no caso, os que ainda não desertaram:

“Ah, Reinaldo, vem da constatação de que aqueles que estão aí, até agora, nada fizeram. Se eram todos políticos tradicionais, de grandes partidos, e nos largaram nessa lama, por que eu deveria confiar neles?”
Pois é... Tal resposta seria uma tolice porque, para que o raciocínio fosse aceitável, forçoso seria que se substituíssem os maus obstetras por parteiras; os maus engenheiros por práticos que vão juntando escora e cimento ao Deus-dará; os maus dentistas por curiosos do boticão.

Por que pessoas sensatas em suas respectivas profissões, hábeis do manejo dos fundamentos de suas respectivas ciências, testadas, muitas vezes, em mercados competitivos, caem vítimas da suposição estúpida de que a sinceridade grosseira, justamente porque desinformada, pode ser redentora?

“Ah, não quer que eu vote em Fulano, né? Então quer Beltrano...” Eu??? Posso auxiliar alguém no uso de adjuntos adverbiais de modo, por exemplo, nunca na escolha de um candidato.

Apenas me dou o direito de indagar que futuro tem um país em que parte considerável daquela que é, para todos os efeitos, a sua elite intelectual não consegue, em matéria de política, ir além dos memes que recebe pelo celular. De resto, aquela indagação desconfiada pressupõe a mentira de que, desde sempre, estivemos entre a cara e a coroa.

Se posso fazer uma advertência, lá vai: um eventual resultado das urnas pautado pelo raciocínio mágico será, depois, cobrado pelo mundo real, que sempre aparece para assombrar as fantasias, como fez com Fernando Collor e Dilma Rousseff, que caíram.


Para não deixar passar. O pior aconteceu e está em curso. O Poder Judiciário entrou na eleição. O veto à entrevista de Lula, com censura prévia, afronta as regras de funcionamento do Supremo e os Artigos 5º e 220 da Constituição.

A marota quebra de sigilo da delação de Antonio Palocci, determinada por Sérgio Moro na boca da urna, é uma aberração. Nos dois casos, a toga tenta fazer sombra na vontade do eleitor. E que se note: estou entre aqueles que acham que a entrevista de Lula faria mais mal do que bem ao PT.

Mas isso não determina a minha crítica. Meu candidato é o respeito às regras do jogo. Faz parte do pensamento mágico ignorar as obviedades do Conselheiro Acácio, segundo quem as consequências vêm sempre depois.

A República que ainda não foi


Nos 30 anos da Constituição, há muito que avançar




por Luís Roberto Barroso

Ministro do Supremo Tribunal Federal; professor da Uerj e do UniCeub e colaborador acadêmico da Harvard Kennedy School (EUA)


O ministro Luís Roberto Barroso, durante sessão plenária do STF, em agosto - Pedro Ladeira - 16.ago.18/Folhapress
O ministro Luís Roberto Barroso, durante sessão plenária do STF, em agosto - Pedro Ladeira - 16.ago.18/Folhapress

Ao celebrar o trigésimo aniversário da Constituição brasileira, é possível olhar para trás e fazer um balanço de conquistas e frustrações do período. Na contabilidade positiva, devem-se lançar: 30 anos de estabilidade institucional, a conquista de estabilidade monetária e uma expressiva inclusão social. Em uma geração, derrotamos a ditadura, a inflação descontrolada e obtivemos vitórias marcantes sobre a pobreza extrema. Nenhuma batalha é invencível.

A essas realizações se somam avanços importantes nos direitos humanos, com destaque para os direitos de mulheres, negros, gays e populações indígenas.

Além disso, consolidamos a liberdade de expressão em um país de tradição autoritária e cultura censória. E o SUS, com todas as dificuldades de subfinanciamento e gestão, é hoje o maior sistema público de saúde do mundo, do qual dependem 160 milhões de pessoas.

Na contabilidade negativa, não podem estar de fora: um sistema político que reprime o bem e potencializa o mal, e que precisa ser reformado para se tornar mais barato, mais representativo e facilitar a governabilidade; a revelação de um quadro de corrupção estrutural e sistêmica, que nos coloca no 96º lugar no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, e só agora passou a ser enfrentado pela sociedade e pelas instituições; e o fato de sermos o país mais violento do mundo, com 63 mil homicídios por ano.

As aflições do momento se devem aos embates para a superação da velha ordem. Olhando para o futuro, três itens devem estar na agenda brasileira: um pacto de integridade e republicanismo para substituir o modelo oligárquico de apropriação privada do Estado; um choque de livre iniciativa, com mais sociedade civil e menos oficialismo, sem desmonte dos programas sociais de proteção destinados a garantir dignidade e oportunidades para os menos favorecidos; e uma opção verdadeira e engajada em favor da educação. Elaboro esse último ponto.

Precisamos transformar a educação básica em um projeto nacional, suprapartidário e patriótico. Não um slogan, mas uma obsessão construtiva. Quando da transição do governo Dilma Rousseff para o governo Michel Temer, o grande debate no país foi acerca de quem seria o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e o presidente do BNDES. Todos compreensivelmente preocupados em escolher os melhores nomes e os melhores rumos.

A educação, no entanto, entrou no racha geral da política. Aliás, tivemos cinco ministros da Educação nos últimos quatro anos e meio. Não há política pública que possa resistir a tal fragmentação e descontinuidade.

Já temos diagnósticos de alguns dos principais problemas. Três deles são: não alfabetização da criança na idade própria; evasão escolar no ensino médio; déficit de aprendizado revelado nos exames de avaliação domésticos e internacionais.

Por outro lado, pesquisas mundiais documentam que um dos melhores investimentos que um país pode fazer é no ensino infantil de zero a três anos, fase da vida em que o cérebro absorve como uma esponja tudo o que seja a ele transmitido.

Essa é a hora de dar à criança nutrição, afeto, respeito, valores e capacidades cognitivas. Num país com muita pobreza e tantos lares desfeitos, a ampliação máxima do ensino nessa fase é um caminho para a superação dos três problemas referidos acima.

Em meio à polarização política, o país poderia celebrar dois pactos, que funcionariam como um denominador comum que uniria os extremos. O primeiro seria o compromisso de integridade, materializado em duas regras: na ética pública, não desviar dinheiro; e, na ética privada, não passar os outros para trás.

O segundo seria um plano estratégico, de curto, médio e longo prazos para a educação básica. A ser conduzido pelos melhores quadros possíveis, que não estejam à mercê dos prazos e circunstâncias do varejo político. Com atraso, mas não tarde demais, essa será a grande revolução brasileira, pacífica e construtiva.

Fantasmas petistas



Datafolha mostra avanço de Bolsonaro e disparada da rejeição a Haddad


por editoriais@grupofolha.com.br


Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), candidatos à Presidência da República - Fotos Paulo Whitaker e Nacho Doce/Reuters
Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), candidatos à Presidência da República - Fotos Paulo Whitaker e Nacho Doce/Reuters


No cenário sonhado pelo comando petista, o segundo turno da eleição presidencial seria um plebiscito sobre Jair Bolsonaro no qual Fernando Haddad representaria a alternativa à truculência e ao despreparo do candidato do PSL.

Entretanto dificilmente deixaria de haver um outro plebiscito, que parece em curso acelerado, acerca do legado do PT e de seu líder máximo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aqui, é o capitão reformado quem assume desde já o papel principal no contraponto aos escândalos de corrupção e à devastação das finanças públicas.

Na semana final da campanha de primeiro turno, a nova pesquisa Datafolha mostra a rejeição a Haddad em elevação rápida e acentuada, de 32% na sondagem de 26 a 28 de setembro para 41% verificados nesta terça-feira (2).


Já as intenções de voto no petista ficaram estagnadas, oscilando de 22% para 21%, pela primeira vez desde que Lula foi substituído no posto de candidato.

Bolsonaro mantém a maior taxa de rejeição, de 45%, mas ampliou sua dianteira na corrida ao Planalto. Tem 32% das preferências, ante 28% no levantamento anterior, o que tende a alimentar seus apelos a eleitores por uma vitória definitiva já no domingo (7).

Na simulação de segundo turno, Haddad, com 42%, não mais leva vantagem sobre o rival do PSL, que reúne 44% das intenções.

O petista vem buscando um discurso mais conciliador na política e moderado na economia —esquivando-se, tanto quanto possível, de questões referentes aos desvios bilionários descobertos na Petrobras e à catástrofe recessiva produzida por Dilma Rousseff, temas que nunca mereceram a devida autocrítica por parte de sua legenda.

A tarefa se torna árdua quando personificações das práticas mais nefastas associadas aos governos do PT voltam à cena.

Num caso, o ex-ministro José Dirceu, condenado a penas que somam cerca de 40 anos de prisão, fez críticas à Lava Jato e disse, segundo o jornal El País, que a agremiação vai “tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”.

Em outro, o juiz Sergio Moro, num ato de oportunidade duvidosa, decidiu divulgar parte da delação de Antonio Palocci, também ex-ministro e hoje banido do PT.

Não há muito de propriamente novo nas acusações de Palocci, nem se conhecem provas que as corroborem. Entretanto elas reavivam a memória das múltiplas investigações a respeito de propinas, superfaturamentos e caixa dois nas campanhas petistas.

Haddad tem contestado os fundamentos da condenação de Lula por corrupção. Muito mais difícil é convencer que seu mentor nada sabia sobre o estupendo volume de negócios escusos nas administrações de seu partido.

Constituição, 30 anos


Carta permitiu período democrático mais longo da história do país




Atual Constituição completa 30 anos nesta sexta-feira (5) - Ilustração de Ana Elisa Egreja
Atual Constituição completa 30 anos nesta sexta-feira (5) - Ilustração de Ana Elisa Egreja


Com apenas 30 anos, completados nesta sexta-feira (5), a atual Constituição já se afigura como a segunda mais longeva da história republicana do Brasil, perdendo apenas para a de 1891. Seu maior mérito é justamente o de ter proporcionado três décadas de democracia e normalidade institucional.

Não se pode dizer que o país tenha vivido tempos fáceis —de 1988 para cá, houve pelo menos dois períodos de intensa turbulência política, que levaram a processos de impeachment de presidentes da República. Tudo transcorreu, porém, conforme os cânones da Carta.

Outros pontos positivos incluem um núcleo robusto de direitos e garantias individuais e o estabelecimento de um sistema de freios e contrapesos que, se não é o ideal, mostrou-se razoavelmente eficaz e permitiu, por exemplo, que o Judiciário e o Ministério Público se tornassem mais independentes.

Evidente que não há apenas virtudes no texto constitucional. Até pelas circunstâncias históricas em que se deu sua negociação, ele cristalizou uma série de contradições, privilégios e equívocos teóricos que precisam ser corrigidos.

Vale lembrar que a Constituinte não surgiu de uma revolução nem de outro movimento de ruptura violenta. Ao contrário, ela se caracterizou como uma tentativa de reunir, numa grande solução de compromisso, tanto as forças que haviam apoiado o regime militar como aquelas que se opuseram a ele.

Naquele contexto, quem teve condições cuidou de perenizar seu interesse, fosse regional, econômico ou corporativo.

Algumas das falhas conceituais, como o juro máximo de 12% ao ano, já estão solucionadas, mas restam problemas de diferentes proporções. Um dos motivos da crise que enfrentamos é que a Constituição estabeleceu direitos sociais de forma generosa, ao lado de privilégios mais difíceis de justificar.

O arranjo vai deixando de se sustentar à medida que cresce a população idosa e encolhe a margem para alta da carga tributária. Impõem-se reformas na estrutura de receitas e despesas públicas, em busca de justiça social, equilíbrio orçamentário e eficiência econômica.

O caminho para fazê-lo é o preconizado pela própria Carta —as emendas constitucionais, que são naturais para textos extensos e detalhistas como o nosso.

Inexiste razão para soluções pirotécnicas, como a convocação de uma Constituinte exclusiva, proposta defendida pelo PT, ou de uma comissão de notáveis que elaboraria projeto a ser submetido depois a voto popular, como sugeriu o vice de Jair Bolsonaro (PSL).

Invencionices do gênero representariam perigo ainda maior no momento de grande polarização que vivemos hoje. A urgência de reformas não justifica atalhos capazes de envenenar ainda mais o ambiente político ou comprometer a qualidade de nossa democracia.

Bolsonaro segundo a imprensa francesa




Os jornais são tendenciosos em relação à misoginia e à rudeza do candidato do PSL



pot Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo



Até mesmo o Le Figaro, jornal da grande burguesia e da direita liberal, bate em Bolsonaro cada vez com mais força, à medida que o ex-capitão aumenta sua vantagem sobre os rivais. Ontem, o jornal estava entusiasmado com a notícia divulgada pelo Publica, dizendo que um grupo de extrema-direita seria a causa do endurecimento da ditadura brasileira. Não sem ingenuidade, acreditava que tal revelação prejudicaria Bolsonaro.

Le Figaro aproveitou a oportunidade para salientar a proximidade entre o candidato e os generais de 1964-1985. Ele lembra algumas das proezas de eloquência de Bolsonaro. Por exemplo, em 1991, ele disse que deveríamos assassinar 30 mil corruptos e que, durante o impeachment de Dilma Rousseff, elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos torturadores da ditadura.

Escusado será dizer que o Le Monde, um jornal de alto nível, centro-esquerda, faz o mesmo assunto ser ouvido pela excelente correspondente Claire Gatinois. Bolsonaro é retratado como “insignificante”, ávido por fama e polêmica, ridicularizado por sua ignorância e seus comentários “agressivos, vulgares, misóginos e homofóbicos”.

Esse é o mesmo tipo de candidato antissistema que a esquerda vomita, especialmente a de Lula, mas também a tradicional, que captura o voto “saco cheio” e “não estou nem aí”. “Devorado pela ambição, ele se aproxima dos evangélicos do Congresso, é batizado por um pastor em Israel, adota um discurso antiaborto. É venerado pelas forças da ordem que prometeu anistiar de crimes e tornou-se o queridinho dos fazendeiros aos quais promete liberalizar o porte de armas e permitir o uso mais amplo de pesticidas.”

Mesmas preocupações no The Economist de Londres: “A América Latina está ameaçada de sua parte pelo crescimento do candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro”. No semanário Courrier International, sob o título Reencontrar o Brasil, o editorial escreve: “O pesadelo brasileiro terá um fim? Da história econômica de sucesso à futura fortaleza da extrema-direita, o passo será dado com toda facilidade?”

O jornal da esquerda intelectual, Libération, dedica várias páginas ao Brasil. O cientista político Frédéric Louault, de Bruxelas, mostra a originalidade da votação. Quanto à questão “votar em Bolsonaro seria uma forma de vingança?”, o pesquisador responde: “Já bem antes, a vingança era o motor do MDB, quando ele lançou a ofensiva contra Dilma Rousseff. Mas seu sucessor, Michel Temer, não conseguiu apresentar mais que um saldo negativo, permitindo que os eleitores se voltassem para uma opção mais radical”.

Outra pergunta: “A imagem de ‘Trump tropical’ lhe parece correta?” A resposta vem rápida: “Seu modelo seria mais o filipino Rodrigo Duterte, mesmo que, como o presidente dos Estados Unidos, Bolsonaro simplifica ao extremo as questões e aposta na provocação. Mas Donald Trump não demonstra o desprezo de Bolsonaro pela democracia”.

Todos os jornais são tendenciosos não só em relação à misoginia de Bolsonaro, mas quanto à sua rudeza.

Sobre isso, como no conluio de Bolsonaro com os generais de 1964, a imprensa francesa parece ter cometido um erro de avaliação. Quando ouvimos aqui os ecos da jornada de protesto “Ele Não”, os especialistas acreditavam que as inúmeras mulheres da manifestação iriam reverter a tendência de voto no candidato. Mas parece que não.

Após ligeira queda, as intenções de voto recuperaram-se. Soube-se mais tarde que “mulheres conservadoras” superariam sua aversão a Bolsonaro em nome do “voto útil”. “Só ele é capaz de impedir o retorno do PT”, diz um grupo de mulheres pelo WhatsApp. E a signatária da reportagem do Libération, Chantal Rayes, termina seu artigo com um pedido às mulheres brasileiras: “Acordem!” 

/TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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Campanha de Bolsonaro pede ajuda de eleitores para fiscalizar urnas




Presidente do PSL apelidou a iniciativa de "Fiscais de Jair"; em vídeo, ele fornece orientações de como utilizar um aplicativo de celular para a fiscalização



por Constança Rezende e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

O presidente do PSL, Gustavo Bebianno Foto: BRUNO ROCHA/FOTOARENA
O presidente do PSL, Gustavo Bebianno Foto: BRUNO ROCHA/FOTOARENA



RIO - A campanha do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) está convocando eleitores do candidato a fiscalizarem as urnas eletrônicas de votação neste domingo, 7. Em vídeo divulgado no site do PSL, o presidente do partido, Gustavo Bebianno, pede que “meia hora antes do encerramento do horário da sessão” os eleitores compareçam à sua zona eleitoral e, ao final da votação, peçam para conferir o boletim de urna. Bolsonaro criticou a votação digital, que, segundo ele, é sujeita a fraudes. O candidato chegou a dizer que não aceitaria nenhum resultado que não fosse a própria vitória - depois ele se corrigiu e disse que apenas não telefonaria para parabenizar o vencedor, como era praxe. A postura foi criticada por adversários.

“É muito importante para nós fazer a totalização paralela dos votos para que, no futuro, caso necessário, possamos tomar as medidas judiciais cabíveis perante ao TSE”, afirma Bebianno. A iniciativa é chamada por ele de “fiscais do Jair”.

Bebianno diz que o sistema eleitoral brasileiro “não nos confere o nível de segurança e de certeza” quanto aos resultados. “Dia 7 é o dia de nós cumprimos a nossa obrigação para com o Brasil. No entanto, isso não basta. Todos nós sabemos que as urnas eletrônicas, que o nosso sistema eleitoral não nos confere o nível de segurança e de certeza que nós gostaríamos de ter, o que pode comprometer a democracia brasileira", diz. 

O presidente do PSL encaminha os eleitores para um site chamado “Fiscais do Jair”, que justifica a conferência paralela questionando a segurança das urnas eletrônicas.


“As urnas eletrônicas possuem várias fragilidades já apontadas por especialistas. Infelizmente, a maior parte delas não é acessível ou passível de auditoria pela sociedade, mas existe uma forma de colaborarmos para diminuir a possibilidade de fraude nas eleições”, diz um texto inicial.

O site explica que, por meio de um aplicativo chamado Totalização Paralela, o “fiscal do Jair” pode escanear o boletim de urna. “O aplicativo lê o QR Code dos Boletins de Urna (BU) impressos nas seções eleitorais após o encerramento da votação oficial, às 17 horas. Os BU lidos são transmitidos e gravados em um servidor para uma totalização paralela”.

O site deixa claro que o aplicativo Totalização Paralela não foi uma iniciativa do partido de Bolsonaro. “O PSL não se responsabiliza pelos dados coletados, sua divulgação ou armazenamento. Apoiamos esta iniciativa por acreditar que ela pode colaborar para a fiscalização das eleições, o que é benéfico para a sociedade e a democracia”, informa o site “Fiscais do Jair”.

Esse aplicativo foi desenvolvido pelo Comitê Multidisciplinar Independente (CMind), criado em 2009 por um grupo de brasileiros especialistas em diversas áreas do conhecimento acadêmico e tecnológico para discutir o uso do voto eletrônico. O grupo tem dez integrantes: três professores universitários de ciências da computação, três advogados com experiência em Direito Eleitoral e em Informática Jurídica, três técnicos de Tecnologia da Informação e um jornalista, todos com experiência no processo eleitoral eletrônico brasileiro. O aplicativo ficou pronto em setembro passado.

Consultado pela reportagem, o Tribunal Superior Eleitoral afirmou que apoia a “fiscalização cidadã” da totalização dos votos, mas que “qualquer iniciativa de totalização paralela precisa ser vista com bastante cautela”.

“A primeira questão a ser observada é a quantidade de seções eleitorais que serão conferidas. É improvável que a equipe de fiscais consiga a totalidade dos boletins de urna do país. Nesse sentindo, uma totalização paralela deve ser vista como um indício estatístico acerca da validade dos resultados oficiais”. O Tribunal afirma ainda que iniciativas particulares não estão sujeitas à mesma fiscalização aplicada ao TSE: “Tais iniciativas não estão sujeitas à ampla fiscalização à qual o software do TSE está. Portanto, é fundamental que o trabalho desses fiscais também passe por revisão e seja confrontado com os resultados obtidos por outros grupos”.

O TSE afirmou ainda que é preciso levar em conta se esses aplicativos estão atualizados quanto a eventuais cassações de candidatos, o que altera a proporção de votos válidos.

Também consultado pela reportagem, o Ministério Público Eleitoral não se manifestou sobre a iniciativa do PSL até a noite desta sexta-feira.
Fiscalização

Em cada eleição existem fiscais oficiais, indicados por cada partido para trabalhar nas seções eleitorais e com funções específicas. Mas toda pessoa pode participar da fiscalização. A Justiça Eleitoral incentiva e dá orientações para isso, mas usando um aplicativo próprio, teoricamente com a mesma função do Totalização Paralela. A versão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) chama-se Boletim na Mão.

Segundo o TSE, ao fim da votação, às 17h, cada urna imprime cinco vias de um boletim que contém a identificação da seção eleitoral, o número de eleitores que votaram ali e a quantidade de votos registrados para cada candidato ou partido, além de brancos e nulos.

Uma das cinco vias é afixada na porta da seção eleitoral, tornando público o resultado daquela urna. As outras quatro vias ficam à disposição dos fiscais oficiais dos partidos. Simultaneamente, uma versão eletrônica do boletim é enviada ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) daquele Estado, por meio de uma rede virtual exclusiva da Justiça Eleitoral.

Enquanto o TRE confere a autenticidade dos dados recebidos e inicia a contagem de votos no Estado, o eleitor pode auditar o resultado de uma ou mais seções por meio do QR Code impresso em cada boletim de urna. Esse código pode ser lido por celulares com câmera fotográfica que tenham o aplicativo “Boletim na Mão” instalado. Com o celular aberto no aplicativo, mesmo se não houver conexão com a internet, o eleitor escaneia o QR Code nas seções eleitorais de seu interesse e pode conferir se os dados coletados correspondem àqueles divulgados pelo site do TSE na seção Boletim de Urna na Web.

A consulta pode ser feita já no dia seguinte à votação, assim que a apuração seja concluída em todo o País.

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Campanha de Haddad muda agenda para tentar barrar avanço de Bolsonaro no Nordeste

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

FHC critica Haddad e diz que Bolsonaro ‘vai no embalo da ventania’

Ex-presidente usou o Twitter para comentar suas impressões do debate da Globo e reafirmar apoio a Alckmin



Ana Beatriz Assam, O Estado de S.Paulo


Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou Twitter para manifestar suas impressões do debate da Rede Globo, último entre os presidenciáveis antes do 1º turno. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou Twitter para manifestar suas impressões do debate da Rede Globo, último entre os presidenciáveis antes do 1º turno. Foto: Daniel Teixeira/Estadão


Segui o debate ontem. Impressões: Bolsonaro, sem voz, vai no embalo da ventania; Haddad, parece que tudo começa e acaba na máscara do Lula; Ciro, charmoso, a biruta leva; Alckmin, experiência e sensatez em momento de exasperação; Marina, um grito parado no ar. O resto é silêncio.


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) manifestou pelo Twitter suas impressões do debate entre presidenciáveis da Globo, ocorrido na noite desta quinta-feira, 4, último embate entre os candidatos ao Planalto antes do 1º turno.

Segundo FHC, o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, que não compareceu ao debate por recomendação médica, ‘sem voz, vai no embalo da ventania’. Também criticou o candidato do PT, Fernando Haddad, a quem acusa de usar a ‘máscara’ do ex-presidente Lula, condenado e preso pela Lava Jato. Os presidenciáveis do PDT, Ciro Gomes, e da Rede, Marina Silva também receberam comentários negativos do ex-presidente.
Apenas o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, foi elogiado. FHC já havia manifestado seu apoio ao tucano pela plataforma e recentemente encabeçou um manifesto de intelectuais pró-Alckmin.

Os antagonistas



Bolsonaro reina entre mais ricos e escolarizados; Haddad, entre mais pobres e sem instrução



pot Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo



A melhor expressão do antagonismo entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) está no perfil dos seus eleitores e, particularmente, num dos segmentos das pesquisas: enquanto o favorito encanta os mais ricos e escolarizados, que acreditam no velho que se diz “novo”, o petista consolida a posição entre os de menor renda e instrução, que creem piamente no Pai Lula. Até nisso os dois representam os extremos.


Pelo Ibope/Estado/TV Globo, Bolsonaro, que virou o queridinho do mercado, cresceu cinco pontos e atingiu 51% entre os eleitores de maior renda familiar mensal. Na outra ponta, Haddad perdeu seis pontos entre os mais ricos, mas cresceu sete pontos e atingiu 33% entre os de menor renda.

Bolsonaro continua subindo e está com 43% entre os que têm maior nível de instrução, enquanto Haddad disparou oito pontos e foi para 34% no campo oposto, dos menos escolarizados, além de também crescer seis pontos entre os que têm só ensino fundamental completo.


Se Haddad lidera no Nordeste, com 36%, Bolsonaro está na frente em todas as demais regiões, inclusive no populoso Sudeste, onde o petista cresceu cinco pontos, mas só chega a 18%.

Esse dado combina com o desempenho dos candidatos do PT aos governos estatuais. Eles comem poeira em São Paulo, Rio e Espírito Santo e o governador Fernando Pimentel, que disputa a reeleição, está em segundo lugar em Minas.

Sem partido e coligações importantes, Bolsonaro não tem candidatos oficiais fortes nesses Estados, mas os favoritos já pulam no seu barco em São Paulo, por exemplo, onde ele lidera com folga para a Presidência. Vide João Doria, do PSDB.

Se teve três péssimas notícias na semana anterior – estagnação, rejeição e derrota para todos no segundo turno –, Bolsonaro inverteu o jogo na reta final do primeiro turno, em que voltou a crescer, está em empate técnico com Haddad no segundo turno e conquista apoios relevantes, não só para vencer a eleição, mas também para governar.

Assim como cresceu entre os mais ricos e escolarizados, ele também chegou a 43% entre os evangélicos e a 35% nas capitais, que têm maior poder de influência na eleição e sobre o Congresso.

Se não tem apoio formal de partidos nem sabe lidar com eles – já passou por nove, em sua longa, apesar de apagada, carreira política –, Bolsonaro recebeu a adesão oficial da considerável Frente Parlamentar da Agropecuária e, informal, da Frente Evangélica e da “bancada da bala”, que defende o armamento da população como forma de combate à violência. São todas frentes suprapartidárias, formadas por deputados e senadores de centro e, principalmente, de direita. E, se são fortes hoje, devem vir mais fortes ainda em 2019, surfando na clara onda de direita que assola o País e resulta em Bolsonaro. Ele é causa e, mais ainda, efeito dessa onda.

De qualquer forma, as pesquisas ainda não confirmam o entusiasmo e o discurso da campanha bolsonarista de que é possível vencer em primeiro turno. Pelo Ibope, ele tinha 38% dos votos válidos até quarta-feira. Impossível nada é, mas é bastante difícil que consiga 12 pontos nesses quatro dias para fechar a eleição já no domingo.

Pode ser um alento para Haddad, já que o segundo turno é uma segunda eleição, com tempo igual de TV e com intensa movimentação de políticos e eleitores para se recolocarem. Mas uma coisa é certa: Bolsonaro atravessou todo o primeiro turno em vantagem e chega ao segundo demonstrando força e colhendo adesões. Haddad herdou boa parte dos votos que seriam de Lula, mas está herdando também a imensa rejeição ao PT. A organicidade, a estratégia e a disciplina do partido não estão dando conta de reagir à altura.

Post com propostas atribuídas a Bolsonaro mistura informações falsas e verdadeiras


Publicação considerou como propostas do candidato opiniões emitidas por aliados dele, mas que foram desautorizados por presidenciável do PSL



por Estadão Verifica





A checagem abaixo foi publicada pelo Projeto Comprova. A verificação foi realizada por uma equipe de jornalistas do O Povo, SBT e Gazeta Online. Outras redações concordaram com a checagem, no processo conhecido como “crosscheck”.


O Projeto Comprova é uma coalizão de 24 veículos de mídia com o objetivo de combater a desinformação durante o período eleitoral. Você pode sugerir checagens por meio do número de WhatsApp (11) 97795-0022.

Uma lista de oito “propostas” atribuídas ao candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL), amplamente repercutida no Twitter, mistura informações falsas e enganosas a outras verdadeiras ou ambíguas a respeito do que o presidenciável de fato pensa e propõe.

O tuíte elenca como proposições do candidato o “fim do 13º e férias”, “redução da licença maternidade”, “Imposto de Renda igual pra ricos e pobres”, “volta da CPMF”, “fim do Bolsa Família e projetos sociais”, “entrega da Petrobras, Banco do Brasil e Caixa para americanos”, “mais armas em circulação” e “teto de gastos com saúde e educação”.

Para verificar se os itens acima compõem ou não o conjunto de ideias que o candidato pretende implementar, caso seja eleito, o Comprova analisou seu plano de governo e consultou entrevistas concedidas por ele e por aliados sobre temas propostos para o país. Dentre o total, seis pontos são falsos.

A informação de que o presidenciável quer o fim do 13º salário e das férias remuneradas é baseada em declarações do seu companheiro de chapa e candidato a vice-presidente, general Hamilton Mourão (PRTB), que já criticou os dois direitos trabalhistas, classificando-os como “jabuticabas brasileiras”. A fala gerou atritos na campanha e levou Bolsonaro a desautorizar publicamente Mourão, afirmando que criticar o 13º salário é uma “ofensa a quem trabalha”. Além disso, o tema não aparece no plano de governo dessa candidatura. Dias depois da bronca de Bolsonaro, no entanto, o general Mourão voltou a criticar a existência do 13º.

O candidato também desautorizou seu economista, Paulo Guedes, após ele, em conversa com investidores, em 19 de setembro, sugerir um novo imposto nos moldes da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e o estabelecimento de alíquota única de Imposto de Renda, de 20%, para pessoas físicas e jurídicas. Sobre o tema, o candidato do PSL esclareceu, no Twitter: “Ignorem essas notícias mal intencionadas dizendo que pretendemos recriar a CPMF. Não procede”.

Sobre o IR, Bolsonaro, em entrevista concedida no dia 24 de setembro, defendeu a isenção para aqueles que recebem até cinco salários mínimos (R$ 4,7 mil – hoje, é isento quem ganha menos de dois, R$ 1,9 mil), mas uma alíquota única de 20% para aqueles com renda acima do patamar.

Nesta campanha presidencial, o candidato não incluiu em seu plano de governo nem mencionou em entrevistas ideias para rever o período de licença-maternidade, mas já o fez em ocasiões anteriores. Ele criticou esse direito em 1993, segundo uma reportagem da revista Veja, e em uma declaração dele em entrevista concedida ao jornal Zero Hora em 2014.

“A mulher luta muito por direitos iguais, legal, tudo bem. Mas eu tenho pena do empresário no Brasil, porque é uma desgraça você ser patrão no nosso país, com tantos direitos trabalhistas. Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? ‘Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade’. (…) Quem que vai pagar a conta? O empregador. No final, ele abate no INSS, mas quebrou o ritmo de trabalho. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano”, afirmou Bolsonaro na época.

Quem defendeu recentemente a redução da licença-maternidade foi o Clube Militar, que congrega oficiais das Forças Armadas, e cujo presidente licenciado é o general Hamilton Mourão, vice-de Bolsonaro.

A informação de que o candidato pretende encerrar o programa Bolsa Família e projetos sociais é falsa. O plano de governo dele propõe “a modernização e aprimoramento” do benefício e fala em “instituir uma renda mínima para todas as famílias brasileiras”. É verdade, porém, que o político era um crítico do programa. Em 2011, disse que “Bolsa Família nada mais é do que um projeto para tirar dinheiro de quem produz e dá-lo a quem se acomoda”.

Da mesma forma, o candidato não propõe entregar bancos públicos e Petrobras “para americanos”.

Jair Bolsonaro é a favor de privatizações, mas já descartou, em entrevistas, vender o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Quanto à Petrobras, ele já se declarou disposto a privatizá-la “se não tiver uma solução”, mas alterou o posicionamento e falou em privatizar apenas um “miolo” da petrolífera.

Duas das propostas listadas pelo tweet em questão são baseadas em declarações verdadeiras e não ambíguas: o interesse na ampliação do acesso a armas e a aprovação do teto de gastos. Bolsonaro planeja “reformular” o Estatuto do Desarmamento. Já chegou a declarar que “o cidadão armado é a primeira linha de defesa”. A proposta consta no seu plano de governo.

Deputado federal, ele votou a favor, no primeiro e no segundo turno, da proposta que limitou à inflação o crescimento de gastos públicos. A Emenda nº 95/2016, porém, permite que gastos com educação e saúde subam acima da inflação, desde que haja compensação com redução em outras áreas.

Há versões da peça enganosa no Facebook, mas a publicação de maior repercussão está no Twitter. Postado às 8h15 de quinta-feira, dia 4 de outubro, o tuíte viralizou nas 24 horas seguintes e alcançou 1.603 respostas, 6.652 retuítes e 16.144 curtidas.